Rastreio do Cancro da Próstata

Rastreio do Cancro da Próstata

O cancro constituiu, desde há várias décadas, umas das principais causas de morte no mundo ocidental e é responsável por um grande sofrimento, nos doentes e nas pessoas que os rodeiam. O que sabemos hoje, com a estrondosa evolução da medicina nos últimos 40 anos, é que muitas destas doenças têm cura, especialmente se detetadas a tempo. 

A questão mais importante quando falamos de cancro é o momento, na evolução da doença, em que se faz o diagnóstico, ou seja, em que sabemos que ele existe. Todas estas doenças começam por ser uma simples célula microscópica que por alguma razão é diferente das outras. Nesse momento, e durante um longo período, o cancro não é mais do que um conjunto de células em multiplicação, suficientemente inofensivo e pequeno para ser facilmente tratado. O problema é quando deixa de ser inofensivo, progride e se espalha, deixa de ser curável e se iniciam os sintomas, originando sofrimento e culminando com o fatal desfecho. Sendo o momento de diagnóstico tão decisivo para um bom resultado nos tratamentos surgiram os programas de rastreio como o do cancro da mama, do cancro colo-rectal, entre outros.

O cancro da próstata é o cancro mais diagnosticado no homem, com 417 mil novos casos e 92 mil mortes na Europa por ano, constituindo a segunda causa de morte oncológica. É por isso um problema de grande magnitude, com um impacto enorme na saúde das nossas comunidades e que terá tendência a crescer com o envelhecimento da população.

Um estudo europeu randomizado sobre o cancro da próstata mostrou uma redução de 21% da mortalidade com o rastreio, o que equivale a prevenir a morte de um homem em cada 781 rastreados e de 1 em cada 27 dos cancros detectados. Mais impressionante, se o rastreio for continuado no tempo, é suficiente rastrear 101 homens e detectar 13 cancros para prevenir uma morte. Estes números revelam melhores resultados do que nos rastreios do cancro da mama ou cancro colo-rectal.

Apesar destas evidências arrebatadoras a comunidade médica mantém-se historicamente dividida, muito por causa do risco de sobre-diagnóstico e potencial sobre-tratamento. O sobre-diagnóstico consiste na detecção do cancro em doentes que são assintomáticos e que não irão desenvolver sintomas durante o período de vida que lhes resta. Este risco é real e obriga a que se pondere bem o âmbito de um eventual rastreio generalizado.

No entanto, a implementação de políticas de saúde contrárias a estes dados revelaram-se desastrosas nos Estados Unidos da América onde a tendência para um aumento da mortalidade de formas agressivas do cancro da próstata são uma realidade nos últimos anos.

O argumento do sobre-tratamento deve-se às complicações associadas ao tratamento local, nomeadamente a incontinência urinária e a disfunção eréctil. Nesta área, como em muitas outras, a evolução tem sido enorme e temos hoje a possibilidade de executar cirurgias menos invasivas e com melhor precisão técnica, como a laparoscopia e a cirurgia robótica. Existe ainda um longo caminho a percorrer até se poder assegurar um tratamento efectivo livre de efeitos adversos, mas não é justo nem sério não reconhecer que se tem evoluído e que é hoje possível assegurar melhores resultados.

A investigação complementar poderá carecer do recurso a diversos exames de imagem, a estudo laboratorial detalhado ou até mesmo à realização de um exame urodinâmico. Este último é o ‘gold standard’ da avaliação funcional de bexiga permitindo, na maior parte dos casos, um esclarecimento completo das causas e circunstâncias em que acontecem as perdas urinárias.

Quando falamos de rastreio de cancro da próstata falamos da análise no sangue do PSA (Antigénio Específico da Próstata). Isoladamente de pouco interesse clínico, se for medido de forma seriada pode fazer levantar a suspeita de cancro da próstata e dar início à marcha diagnóstica. A Associação Europeia de Urologia recomenda uma primeira avaliação entre os 40 e os 45 anos e avaliações subsequentes consoante o risco do individuo. De forma generalista falamos de uma análise anual a partir dos 50 anos e que se deve prolongar até a esperança média de vida ser inferior a 10-15 anos.

Por último, o caminho para conciliar estas diferentes abordagens deve ser sempre o da melhor informação e nunca o da ignorância. Não saber o valor do PSA para não correr o risco de tratar em excesso e induzir efeitos secundários é aceitar correr o risco de detetar o cancro da próstata tarde demais e ver a mortalidade aumentar. Na minha opinião não é aceitável.

Dr. Tiago Rodrigues
Urologia
Hospitalar Particular do Algarve
Joaquim Chaves Saúde

O conteúdo cientifico reproduzido nesta página foi desenvolvido pelo profissional de saúde mencionado.

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